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O teatro que ninguém vê …

Vivi à partir da década de 1980 com teatro em Passo Fundo/RS, muito diferente de hoje.
Naquela época, (nem acredito que estou dizendo isso), pareço minha avó falando… mas a verdade é que era muito mais desafiador que hoje.
A começar por bibliografias, onde disputávamos a unha livros que nos referenciasse sobre autores, textos teatrais e até mesmo linhas teatrais, sim … eramos ratos de bibliotecas, coisa que hoje eu não acredito que haja.
Leis de Incentivo, não haviam, apenas algumas pessoas simpatizantes ou pais ou tios ou avós dos componentes do grupo nos ajudavam com mão de obra para cenários, figurinos, adereços.
Tudo era muito artesanal, mas no final das contas o efeito era fabuloso aos nossos olhos e daqueles que nos assistiam .
Os eletricistas nos auxiliavam com a confecção de charutos para iluminação, mesa de luz e som era um luxo caríssimo… a filha da mãe da tia da avó da amiga da vizinha da mãe costurava para nós sem nos cobrar muito, pois sabia que não tínhamos tanto dinheiro assim para investir, mas mesmo assim faziamos.
Os Cenários: gigantescos, carregar ao caminhao, kombi ou carretinha, viajar até outra cidade, descarregar, montar, apresentar, desmontar, carregar, viajar de volta, descarregar, chegar em casa feliz porque no outro dia tínhamos aula ou ir trabalhar e rezar para que a máquina fotografica tenha captado cenas legais do espetáculo ou que o filme não tivesse queimado…
Hoje ao montar um espetáculo, temos muitas facilidades, um social mídia que cuida da divulgação nas redes sociais, no passado tínhamos cartazes e faixas… podemos pagar para os técnicos que façam a montagem e a operação de som e luz.
A internet ajuda muito, mas eu não vejo nenhum jovem  grupo teatral em nossa cidade que se aventure em apresentar um espetáculo para que a gente possa avaliar em que estágio estão, mesmo com toda a modernidade.
Muito pelo contrário, dos jovens que converso, eles não possuem entendimento da existência de um dramaturgo, escritor ou poeta que nos influenciou em nossa juventude.
Eventualmente dou entrevistas, palestras ou bate-papos com alunos das escolas por aí… 99% das vezes, eles não entendem nada do que eu digo ou das referências que eu sugiro, mas justamente porque estão afundados em um celular fazendo sei lá o que em vez de absorver e aprender.
Eu particularmente, assim os da minha geração que lerão este texto vão concordar comigo… éramos muito mais interessados, inteligentes, briguentos e sedentos por conhecimento.
Hoje há incentivos, leis etc… mas continuamos sendo surpreendido por sempre os mesmos contemplados, ou porque são apadrinhados por A, B, C ou porque pertencem aos partidos A, B, C… ou ainda nos inscrevemos em projetos passamos por inumeras fases e ainsa nossos projetos não atingem os requisitos A, B, C ou não obtiveram a pontuação julgada pela comissão formada por não sei quem …
Graças à iniciativa privada e o mecenato hoje, podemos continuar apresentando nossos trabalhos que julgo de extrema competência, o cuidado com a excelência onde ainda muitos não conseguem acompanhar porque nosso nível de exigência é extremo, pois temos de responder aos nossos apoiadores.
Meu sonho é em um futuro próximo poder ir assistir uma produção realizada por algum grupo teatral de nossa cidade, formado por jovens atores, assim como fomos … intensos, interessados, preocupados com a cultura e o desenvolvimento da arte para a cidade.

Beto Mayer

Junho/2026

Beto Mayer

Ator, produtor, performance, professor de teatro

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Este post tem 3 comentários

  1. Mike Aguiar

    Também enfrentei todos esses perrengues. Pela enorme dificuldade em conseguir equipamentos — caros e praticamente inacessíveis — tivemos que improvisar. Montamos nossa própria iluminação: fomos a postos de gasolina e recolhemos cerca de 100 latas de óleo lubrificante. Lavamos, lixamos, pintamos de preto por fora e branco por dentro, adaptamos bicos de luz e lâmpadas, usamos centenas de metros de fios e criamos nossa própria mesa de comando.
    Para divulgar, levávamos cartazes até as lojas, mas em menos de meia hora eles mesmos os arrancavam. Era uma luta constante, mas também uma prova de criatividade e resistência.
    Hoje, sem dúvida, temos muito mais facilidades — mas aquela época nos ensinou a transformar obstáculos em soluções e a valorizar cada conquista.

  2. Toni Campos

    Beto Mayer fala bem, dessa época inicial, também para mim. Participei timidamente, mas sei do que ele fala. Mestre Mayer sempre pontual

  3. Toni Campos

    Muito bom participar do grupo Projeto Utopia. Preparando um espetáculo com tema bem atual