Assisti ao espetáculo CONSCIÊNCIA, da dupla de atores Beto Mayer e Marino Otavio. Um drama denso, tão denso que parece possível cortar o ar com uma motosserra. O conflito de um homem (Marino Otavio) com sua própria consciência (Beto Mayer) — ou seria seu demônio interior? — provoca estranhamento e desconforto. Ao revelar a face oculta do personagem, retirando sua máscara humana e redescobrindo sua passionalidade, a peça nos conduz a um mergulho perturbador.
Intimista e minimalista, o espetáculo é como estar na sala de visitas de uma casa no meio da floresta escura. Chove o tempo todo, como se o mundo desabasse tentando lavar o sangue de um crime que insiste em permanecer oculto. A troca entre os dois atores é sublime e intempestiva, sustentada por um texto difícil, que não permite improvisos ou adornos. A repetição constante de certas frases martela a mente do público, transformando quem assiste em confidente, testemunha, jurado e juiz.
A sonoplastia, carregada de pingos, chuva e trovões, intensifica o clima de angústia e acrescenta uma pitada de veneno a esse caldeirão fervente de emoções. A luz, assinada pelo parceiro Pablo DeSant, recorta os personagens ora com a delicadeza de uma meia-luz, ora com cores que remetem ao inferno de Dante.
A cena da carta é um achado cênico de rara beleza, e o momento em que Marino se lava em um gomil é de intensa força expressiva, carregado de dramaticidade.
Quando houver outra oportunidade, não deixe de assistir. Mas vá preparado para encarar a essência da frase dita por Beto Mayer — que assina o texto junto com Marino Otavio:
“O ator deve incomodar!”
A propósito, a frase que começa esse artigo para mim é o âmago do espetáculo.
